Começar aos sessenta

Nota de abertura da Bússola

Em Bruxelas, onde vivo há demasiado tempo para estranhar o cinzento de abril, tenho sobre a secretária um livro de Tom Cunliffe que comprei há dois anos e só agora começo a entender. É um manual de navegação costeira. Quando o abri pela primeira vez, pensei, com a arrogância discreta de quem passou a vida a desenhar formação para outros, que o leria depressa.

Demorei seis meses a perceber uma página.

Foi talvez a primeira lição útil de marinharia que recebi — e foi em terra, num apartamento do bairro europeu, longe de qualquer mar. A lição era simples: há saberes que não se deixam conquistar à pressa. A vela é um deles.

Escrevo estas linhas como abertura de uma publicação chamada Bússola. Escolhi o nome antes de saber exatamente o que queria fazer com ele. Queria apenas um instrumento antigo, útil, portátil; qualquer coisa que apontasse uma direção sem prometer velocidade. A maior parte do que se escreve hoje sobre o mar promete precisamente o contrário: aventura, evasão, liberdade, reinvenção, horizontes limpos. Todos bons temas. Todos demasiado gastos para me servirem sem cautela.

A Bússola não é sobre fugir para o mar. É sobre chegar a ele tarde, devagar e a sério.

Tenho sessenta e poucos anos. No final de 2026 deixarei a minha vida profissional tal como a conheci durante décadas. Regressarei a Portugal, provavelmente a Almada, à margem sul do Tejo. Gostaria de comprar um veleiro pequeno, usado, confortável — uma embarcação suficiente para aprender bem antes de sonhar demais. Estou a percorrer a escada de formação da Royal Yachting Association: Competent Crew feito, Day Skipper e Coastal Skipper em preparação, Yachtmaster no horizonte. E, entre uma etapa e outra, milhas. Sobretudo milhas. As que ainda não fiz contam mais do que os certificados que espero vir a ter.

Esta é a situação objetiva. A situação interior é outra, e é dela que este projeto também se ocupará.

Começar aos sessenta não é o mesmo que começar aos vinte. Parece evidente, mas raramente é levado a sério. Grande parte da linguagem sobre aprendizagem adulta continua contaminada por frases motivacionais que servem para canecas, cartazes de ginásio e discursos de fim de semana: nunca é tarde, siga o seu sonho, reinvente-se. A intenção é simpática. O resultado é geralmente inútil.

Claro que se pode começar tarde. A pergunta interessante é outra: como se aprende bem quando se começa tarde?

Quem começa aos vinte tem tempo para errar em abundância. Tem corpo disponível, margem, uma relação quase irresponsável com o futuro. Quem começa depois dos cinquenta aprende com outro relógio no pulso. Há menos tempo, talvez menos agilidade, certamente menos paciência para teatro. Mas há também algumas vantagens: respeito pela dificuldade, consciência do risco, atenção ao método, capacidade de distinguir entusiasmo de competência. Saber que uma coisa é difícil é uma forma de progresso.

E velejar é difícil.

É difícil de uma maneira particular: a competência manifesta-se muitas vezes pela ausência de drama. Quem veleja bem parece fazer pouco. O barco entra melhor, a manobra é mais limpa, a tripulação está menos tensa, o erro foi antecipado antes de se tornar visível. Há ofícios assim. A aviação é um deles. A medicina é outro. A marinharia também. São domínios em que o bom profissional — ou o bom amador, quando a palavra amador ainda significava amor ao ofício e não ligeireza — cria as condições para que quase nada de espetacular aconteça.

Foi isso que me atraiu. Não procurei apenas um passatempo para a reforma. Procurei outro domínio onde a competência fosse aplicada, situada, resistente à conversa fiada. Um domínio onde as palavras ainda significam coisas concretas; onde vento, corrente, carta, cabo, leme, fundo e fadiga não são metáforas, mas dados de trabalho. Um domínio em que o erro conserva alguma honestidade: custa, ensina, por vezes assusta, e por isso merece respeito.

Há uma palavra inglesa que aparece inevitavelmente quando se fala disto: seamanship. Traduzir por “marinharia” é correto, mas insuficiente. Em português, a palavra soa por vezes a museu, a cordame antigo, a ilustração de manual naval. Seamanship é mais do que técnica. É uma qualidade de atenção. É saber quando uma nuvem pequena a barlavento merece ser vigiada. É perceber que o vento caiu não apenas no rosto, mas no som da água contra o casco. É escolher o nó certo para o problema certo. É rizar antes de ser necessário, não depois de já ser urgente. É manter margem.

A Bússola será, em grande parte, uma tentativa de compreender esse saber.

Não como autoridade. Esse ponto é importante. Não sou ainda um navegador experiente. Sou um aprendiz com consciência da sua ignorância, e essa talvez seja a única autoridade legítima com que posso começar. Quem procura as certezas de um Yachtmaster Ocean com cinquenta mil milhas encontrará melhores vozes noutros lugares, quase todas em inglês. Aqui encontrará outra coisa: o relato de uma aprendizagem tardia feita com cuidado, em português, com respeito pelo ofício e sem necessidade de fingir que o caminho já foi percorrido.

Este projeto terá três correntes principais.

A primeira será a formação. Escreverei sobre o percurso RYA, sobre os seus cursos, exames, materiais, virtudes e limitações. Tentarei explicar em português aquilo que muitas vezes só se encontra em inglês, sem transformar a RYA numa religião nem a carta portuguesa num inimigo imaginário. Sistemas de formação não são objetos de fé. São ferramentas. Devem ser compreendidos, usados e, quando necessário, criticados.

A segunda será a prática. O Tejo, a Arrábida, o Algarve, a Madeira, os Açores, as águas macaronésias, as passagens possíveis e as prudências necessárias. Não como guia turístico com fotografias de pôr do sol — há abundância disso e o mundo sobreviverá se eu não acrescentar mais uma gaivota em contraluz — mas como notas de preparação, aprendizagem e navegação costeira. O objetivo será simples: escrever as notas que eu próprio gostaria de ter encontrado antes de começar.

A terceira será mais reflexiva: o que significa aprender um novo ofício tarde na vida. O que se transfere de uma profissão anterior para uma prática nova. Como se constrói juízo prático. Como se aprende com instrutores. Como se lida com o corpo quando ele já não tem vinte anos. Como se distingue coragem de vaidade, prudência de medo, ambição de fantasia. Esta será provavelmente a corrente mais difícil de escrever, e talvez por isso a mais necessária.

Há ainda uma dimensão portuguesa que não quero forçar, mas que será inevitável. Portugal tem milhares de quilómetros de costa, arquipélagos no Atlântico, uma história inteira ligada à navegação e uma literatura marcada pelo mar. E, no entanto, a cultura contemporânea da vela de recreio em português é relativamente pobre, fragmentada, frequentemente dependente de referências anglófonas. Não me interessa lamentar isto com o ar grave de quem descobriu uma decadência nacional entre duas bicas. Interessa-me contribuir, no meu pequeno âmbito, para preencher parte desse silêncio.

Escrever em português sobre vela, formação náutica e marinharia aplicada parece-me uma tarefa suficientemente útil para ocupar os próximos anos.

A Bússola não será um diário íntimo, embora parta de uma experiência pessoal. Não será um manual técnico, embora respeite a técnica. Não será uma revista de lifestyle marítimo, embora o mar tenha estilo suficiente para sobreviver sem a nossa ajuda. Será antes um caderno de aprendizagem: ensaios, notas práticas, leituras, recursos, perguntas, erros, pequenas descobertas e algum método.

O ritmo ideal será mensal. A caixa de entrada de um leitor é um sítio mais sagrado do que muitos templos modernos, e deve ser tratada com respeito. Publicar menos e melhor parece-me uma disciplina náutica aceitável.

Começo, portanto, aos sessenta. Não por desespero, nem por moda, nem por uma história pronta de reinvenção. Começo porque quero dedicar a próxima fase da vida a aprender um ofício bonito, difícil, antigo e concreto. Começo porque há no mar uma forma de competência que me interessa compreender. Começo porque Portugal talvez precise de mais lugares onde se escreva sobre o mar sem pose, sem folclore e sem pressa.

A agulha da bússola aponta sempre para o mesmo sítio. Não promete chegada rápida. Promete direção.

É essa a promessa editorial que faço aqui: aprender o mar, devagar.

Bem-vindos.

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